Quem viu Arsenal e Barcelona não deve tido sido intimidado somente pela beleza das jogadas. Particularmente, impressiona a semelhança tática das melhores equipes do mundo atualmente. Há dois ou três meses atrás, com o Real Madrid do brilhante José Mourinho em ascensão, somado às vésperas do clássico Real x Barça, os olofotes acabaram por ofuscar a equipe londrina. Embora sejam frequentes os tropeços frente a equipes inferiores no campeonato inglês, o jeito de o Arsenal jogar é tão encantador quanto o da equipe catalã. A movimentação dos meias é tão intensa que há momentos em que nota-se cinco ou até seis jogadores da equipe do Emirates atacando os adversários. O mesmo se dá defensivamente, pois jogadores como Song, Wilshere e até mesmo Fabregas ajudam muito na marcação, sem falar na efetividade dos laterais Eboue e Clichy. O primeiro destaque a se fazer sobre toda a dinâmica desta equipe é o excelente preparo físico dos jogadores aliado à polivalência dos mesmos. No Arsenal, não joga lateral que é ala, como no Brasil e os meias avançados marcam mesmo, diferente de jogadores brasileiros como Douglas (Grêmio), Roger (Cruzeiro): belos jogadores com a bola nos pés mas péssimos marcadores. Em suma, é o elenco dos sonhos para um Muricy Ramalho, que adora ver suas equipes se aproximarem das equipes de basquete, nas quais todos marcam e atacam, evitando ao máximo qualquer tipo de sobrecarga em alguma zona do campo. Mesmo sendo um modelo ideal, o mesmo se destaca muito quando as equipes podem aplicá-lo. Não a toa, o Barcelona é semelhante: além de Messi, Villa e Pedro se movimentarem de modo infernal aos seus adversários, eles exercem uma acentuada pressão na saída de bola do oponente. Voltando mais atrás, Xavi e Iniesta são craques com e sem a bola, até porque caso não soubessem marcar, o Barça não conseguiria jogar o fino do fino. Ora, sem uma espécie de infra-estrutura de marcação, não há eficiência em nenum ataque. A defesa, por sua vez, contém excelentes jogadores com condição de saída de bola segura, pois além de Abidal exercer a dupla função de lateral e terceiro zagueiro, Piquet e Puyol são zagueirões seguros com a bola nos pés, de modo que podem seguramente conduzir a bola em direção à defesa adversária em momentos de marcação cerrada nos atacantes de sua equipe.
A diferença aqui é que não há Drogbas nestas equipes. Diferentemente de 99% dos clubes da elite do futebol, Arsenal e Barcelona não plantam atacantes com físico de boxeador na área adversária e concentram suas jogadas em lançamentos ou linha de fundo. No Brasil, as escalações com três zagueiros só evidenciam a limitação do elenco das equipes, concentrando a armação nas jogadas de linha de fundo por parte dos falsos laterais ou alas. Não precisa dizer que 99% das equipes, consequentemente, jogam no contra-ataque e que, por essa limitação que Washington(aposentado neste ano) ou mesmo Souza(Bahia) se destacaram um dia. Certamente, Drogba é melhor jogador que Souza e Coração Valente, mas somente em critérios estatísticos. O marfinense erra menos, mas a chance de sua inserção tática com êxito numa equipe como Arsenal ou mesmo no Barcelona é pequena. O futebol bem jogado é muito mais leve que os grandões da zaga e do ataque, se falar dos grandões do meio, como Jucilei (Corinthians). Força física é fundamental no futebol contemporâneo mas, num futebol de extrema competitividade, como o da UEFA Champions League, é só uma das competências fundamentais de um elenco vencedor. Ela deve ser somada à disciplina tática e, principalmente, à flexibilidade dos próprios jogadores dentre de campo. O problema é que como a falta de força física pode impedir um jogador de aguentar uma temporada inteira, a formação dos novos jogadores têm se dedicando quase que esclusivamente a essa competência. De fato, frequentemente nos espantamos com a quantidade de passes errados numa partida do campeonato brasileiro. Em campeonatos regionais ou em Copas do Brasil, os dados são dignos de ser considerados amadores! Essa coisa de um jogador ser profissional e não saber cruzar uma bola, chutar a gol ou marcar o adversário só corrobora que, no Brasil, as condições materiais são nebulosas. Ou seja, não sabemos ao certo o que acontece nos bastidores da formação dos jogadores, mas a quantidade de boatos acerca de pessoas endinheiradas que "pagam" para que seu filho, afilhado, irmão, etc se torne profissional é gritante. Disso resulta que os bons jogadores serão inveitavelmente levados à europa e aqueles medianos, irão rapidamente aos mercados emergentes, restando péssimos jogadores no futebol brasileiro.
Portanto, ver equipes como Arsenal e Barcelona é difícil dadas as condições financeiras e materiais. Porém, treiná-las é mais difícil ainda, pois não são todos os clubes dispostos a realizar trabalhos a longo prazo para a pesquisa de verdadeiros talentos, como fazem as bases destas duas equipes. O modelo de elenco polivalente ainda é muito representado pelo jogo de contra-ataque sem qualidade, de bola alaçada pra área. Oxalá o jogo das equipes de ontem possa um dia se tornar o novo paradigma para uma equipe de futebol: moderno e, acima de tudo, de qualidade.
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